quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A EXPULSÃO DOS JESUÍTAS DA PÓVOA DE VARZIM


No seu artigo saído no Boletim Cultural Póvoa de Varzim, 1996-97, vol. XXXIII, páginas 130-131 (consulte-se aqui a totalidade dele), o Mons. Manuel Amorim, ao falar da expulsão dos Jesuítas da Póvoa de Varzim, transcreve um documento que se exprime deste modo:
No dia 6 de Outubro de 1910, pela tarde, soube-se na residência (era uma casa de madeira junto às obras da Basílica em construção) da Póvoa de Varzim, que a república estava proclamada, em Lisboa.
Aquela noite já não dormimos na residência. Os P.es Alves e Falcão foram para a casa do Sr. Padre Moreira; o P.e Lourenço para a do Sr. Padre José da Silva; o R. P. Superior e eu para as das Senhoras Azuraras. De guarda ao SS. Sacramento ficou um nosso amigo com os dois irmãos coadjutores. A noite decorreu pacificamente. Na madrugada do dia seguinte, voltaram os padres ao seu posto. Disseram missa, distribuíram a sagrada eucaristia a muitos fiéis e confessaram até as 10 horas, pois era a primeira sexta-feira do mês.
Depois do jantar, o Superior chamou ao quarto os padres, repartiu com eles o dinheiro que havia, abraçou-os e despediu-os, segundo refere o P.e Alves, com estas palavras: - Vão para onde Nosso Senhor lhes inspirar...
Três partiram para Braga em carro fechado: eram os padres Alves, Falcão e Pacheco. Os dois restantes com os irmãos coadjutores saíram no dia oito, também, em carro, para Famalicão; daí o P.e Manuel Lourenço e o irmão Saraiva retiraram pelo Porto para suas casas; o P.e Arraiano recolheu-se com o irmão Martins em Ronfe até o dia 15, em que foi, com o companheiro, para La Guardia.
E acrescenta o Monsenhor:
Segundo uma testemunha presente a despedida dos padres foi emocionante mas discreta. Tudo se passou dentro do templo, entre orações e lágrimas de centenas de pessoas compungidas pela sorte dos zelosos sacerdotes aos quais entregavam esmolas para obviar ao seu futuro incerto. Eles eram muito estimados na Póvoa e as principais famílias obsequiaram-nos com provas de solidariedade dignas de registo. Também tinham alguns inimigos, é certo, quer entre uns poucos intelectuais da época, ditos liberais, quer na alta burguesia endinheirada no Brasil bazofiando anticlericalismo com audiência nas tertúlias dos cafés e das bancas do jogo. Para estes, a paragem das obras do grandioso templo (a Basílica) constituía maior perda para a Póvoa do que a ausência dos jesuítas.
O jornal "A Propaganda", que todo se embandeirou com a efígie leonina do Marquês, reproduzindo as leis persecutórias agora postas em prática pela implume república, depois de se referir à expulsão das religiosas do Colégio (Irmãs Doroteias) e do Hospital acrescenta: "... Também já retiraram os jesuítas residentes na casa anexa à igreja do Coração de Jesus, em construção”.
A fuga dos padres jesuítas não foi nem apressada nem nascida de medo infundado. O que se passava em Lisboa era prenúncio do que os esperava por cá. Ora em Lisboa não decorria nada de animador, como se pode concluir desta citação de Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal [1910-1926], vol. XI, Editorial Verbo, 1995, pág. 52:
Ainda na madrugada de 5 de Outubro foi assaltado o colégio dos jesuítas de Campolide, sendo presos o reitor, padre Alexandre de Faria Barros, outros professores religiosos e alguns empregados. [...] Mas como se não tornasse possível a sua guarda neste edifício [quartel de Artilharia I], vieram a ser transferios para Caxias, no meio dos maiores insultos da polpulação. [...] O Colégio do Barro, em Torres Vedras, e as residências de Vale do Rosal e de Setúbal viriam também a ser invadidos e vasculhadas, em actos que tiveram com frequência as marcas do desrespeito e do vandalismo.
De extrema gravidade foi o assassínio, ainda no dia 4 de Outubro, do padre Bernardino Barros Gomes, na casa dos lazaristas de Arroios. A multidão tratou-o com requintes de crueldade, antes de tirar a vida ao piedoso sacerdote, que era também um naturalista considerado. O padre francês Alfred Fargues, que vivia na Igreja de S. Luís, sofreu a tiro o mesmo suplício, causando as suas mortes a maior repulsa.
Na Imagem: prisão dum padre ao tempo da República, segundo um jornal inglês, que os de cá não ousariam publicar tais coisas.
Fonte: História de Portugal acima citada.

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